sexta-feira, 22 de setembro de 2017

EXERCÍCIO DA GUERRA

Rajadas de metralhadoras são expelidas por consideradas bocas santas. As más línguas, com seus ditados impopulares, espalham a notícia. O Alfabeto traído, encurralado no beco escuro da ignorância, foi assassinado sem dó nem piedade. A escrita e a fala não mais existem. O analfa matador de aluguel grunhe um som ininteligível de vitória. Ao mesmo tempo, perto dali, nasce a Mímica.


Fábio Roberto


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

HIBEERNANDO

Quem avisa...

Os seres humanos, coletivamente, aparentam estar retrocedendo e endurecendo os seus espíritos, enquanto os animais tornam-se cada vez mais sensíveis. Tudo está errado, mesmo aquilo que parece certo, porque não existe parâmetro ou lógica na existência sem roteiro definido.

Improvisação é o sonho impossível que se deve realizar, pois vivemos ao sabor amargo da imprecisão do destino, não sabendo pra onde o vento irá soprar, nem tendo certeza de que haverá vento para nossas caravelas navegarem no mar da inconstância.

Nesse cenário, fazer, provocar e divulgar arte é uma arte fundamental e este Blog é incansável na missão de fomentar os escritos, ditos, cantados ou desenhados que gerem sentimentos perturbadores de forma positiva e a movimentação deste planeta estagnado nas mesmas rotações e translações para dimensões inovadoras.

Em seu segundo período de exposições criativas, o Blog “Poemas Brabos” novamente atingiu a meta de emocionar, instigar, inspirar e irritar os poetas que escreveram e os leitores que visitaram suas páginas apreciando versos e adversos. Foram 1.192 publicações e 622 comentários Brabos!

Mas numa auto-pro-vocação artística em busca do entendimento ou desentendimento de sua consciência em relação ao Universo, “Poemas Brabos” entrará em recesso, hiato, coma, estado de meditação plena ou hibeernação, permanecendo fechado para novas postagens e aberto para visitas e eventuais comentários, por tempo indeterminado, tal qual é o tempo da vida.

A todos que acompanharam ativa ou furtivamente, participaram com ousadia ou fugiram covardemente do Blog “Poemas Brabos”, agradecemos presença ou ausência.

Voltaremos aqui. Se não voltarmos é porque transcendemos este tempo/espaço.

AMIGOÉ

(André Aguirra, Fábio Roberto, Leandro Henrique)




sábado, 2 de setembro de 2017

mudo

tenho dúvidas se duvido

até da sombra de dúvidas

sob árvores de incerteza

se de seus frutos dúbios

sorvo o sumo silêncio

ou sumo até nem mais não ser

desapareço até de dentro 

se dentro de cada mudez

há uma sede à flor dos lábios

buscando apreensiva o beijo

em cuja mudez me perenizo

em cuja permanência mudo

duvido então até se duvido

dessa questão entre muitas

uma dúvida de vidro imersa

num espelho de perguntas.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Do Livro das Letras - BRILHOS TURVOS

Voluntário ou não o poema surge na cabeça. Não há porque temê-lo, só faço escrevê-lo, como se fosse do teatro uma peça, e musicá-lo. Dentro de mim há intensa vida, e o sentimento não calo, seja chegada, seja partida, seja pra amada, seja ferida...

BRILHOS TURVOS (musicada em 1979)
A ponta da faca roça meu peito.
Em pensamentos turvos me vejo em novo leito.
Coragem selvagem.
Coragem covarde.

A ponta da lâmina brilha afiada.
Nenhuma voz para dizer pare.
Nenhuma voz para dizer não.
Nenhuma voz brilha.

A ponta da faca covarde.
Pensamentos turvos roçam meu peito.
Coragem afiada.
Pensamentos brilham.

A ponta da lâmina turva.
Nenhuma voz, lâmina selvagem.
Nenhuma voz, peito aberto.
Um brilho turvo cai no leito.

Ouço gritos, brilhos turvos,
gritos histéricos dizendo não.
Ouço gritos, brilhos turvos,
gritos histéricos dizendo não.

Fábio Roberto


terça-feira, 22 de agosto de 2017

FORASTEIRO


Não sou essa tola verdade de homens
Não sabem quem sou
Eu sou muito mais do que a própria idade
Que nunca chegou
Não sou essa falsa amizade
Sou inteiro naquilo que sou
Forasteiro perdido
Som

Sou inteiro pedaços partidos
E viverei até sonhar
Sôo longe deste lugar

Soa o grito canalha
Dessa febre inocente

Sou a voz dos temporais




Fábio Roberto


Obs.: musiquei este poema em 1983 e lendo a bela poesia da Andréa Fernandes o lembrei e achei adequado publicá-lo agora.

RECEITAS MÁGICAS


O que é de verdade permanece
O resto é chuva de verão, ilusão e desgosto
Sepulcro caiado, jato de tinta desbotado
Vidraça quebrada, espelho estilhaçado
Num mundo velado
Tudo é fake, tudo de mentira, tudo vazio, decepção
Não darei receitas mágicas ao que exige tradução e uma brilhante dedução
Seja perspicaz, seja iluminado
Nos tornamos seres esquisitos, preocupados em agradar a quem não merece, atacar quem padece
Peça à bússola o seu norte
Peça ao jogo de cartas sua sorte
Peça uma arma e seu porte
Conto de fadas é pra crianças
Jogo de espadas pra viris
Não espere de mim metade
Por que só sei ser por inteiro, de verdade


Andréa Fernandes



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

LIBANESA

Desenho no teto do meu quarto
Rabiscando a escuridão com os olhos
A tinta é a lembrança de uma visão
Alguém trazida de um futuro iluminado
A letra foi forjada na força da emoção
Alegrias e caminhos, as matizes deste sonho
E o silêncio desta pintura se quebrará
Num violão em melodias harmoniosas
Uma paz na certeza de amar
Certeza de ser feliz para todo o infinito
Que este teto, esta escuridão, esta lembrança
Eternizados na presença constante do amor.

Jairo Medeiros
20 08 2017

Para Roberta

SEMPRE

Muito bom ter você perto
Matando a saudade no olhar
Profundo, lento e direto
Matando a distancia no abraço
No sorriso aberto, sincero
Acabando com a solidão nas noites frias
Esperando as luas do verão para passeios
Mãos dadas na sombra da nossa alegria
Fé que o caminho é longo e tortuoso
Mas que a paisagem faz valer a pena
Teu perfume no embaraço dos teus cabelos
Quando passo minha boca em seu pescoço
Sentido arrepios e desejos mais ternos e profanos
Distrações eternas como garoa fina em noite sem luar
Temos todo tempo do mundo para ter isso sempre.
Sempre.
Sempre.

Jairo Medeiros
21 agosto de 17

Para Roberta

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Maio Maria Matão

Ela olha  as frutinhas
A mais de 20 metros de distância

O canto dos pássaros
Os cachorros perdidos

Ela se compadece
Da tamanha loucura que é o viver

Na Terra
É tudo vislumbrante e tenebroso

Plantamos uma árvore
Explodimos uma minhoca

Admiramos o trabalho árduo das formigas
Pisamos

Enormes folhas são carregadas
E sob as nossas costas
O peso das dúvidas:

O que eu faço na Terra?
Quem sou eu?

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Feche os olhos.



Pense nuns olhos fechados
E respiração lenta
Mente leve e desperta
Ouvindo o murmúrio do amor
Sentindo a pele arrepiar
No toque dos beijos leves
Navegar por dentro dos teus ouvidos
E descobrir qual a música sou pra você

Jairo Medeiros  2017-08-15


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

HEIN?

Faço poemas pras Musas
-Sacana!
Chamo uma puta de puta
-Canalha!
Digo-me maldito errante
-Psicopata!
Tinjo-me de suavidade
-É gay!
Cortejo quem me atrai
-É casada!
Desdenho quem me enoja
-Vai lá!
Agrido quem merece
-Violento!
Revelo as verdades
-Tarado!
Vomito a sociedade
-Hipócrita!
Isolo-me nas festas
-Estranho!
Sorrio pra desgraça
-Interna!
Choro um romance
-Piegas!
Acendo uma paixão
-De novo?
Esqueço uma paixão
-De novo?
Tranco o coração
-Que é isso?
Faço uma canção
-Trabalha!
Brindo por viver
-É bêbado!
Distraio-me sonhando
-Drogado!
Desejo só morrer
-Suicida!
Eu olho para frente
-É surdo!
Fábio Roberto

sábado, 12 de agosto de 2017

FOTOGRAMAS

AVISO
Este texto-filme contém líricas e cruas cenas de violência física e psicológica!

Do Livro de Textos e Crônicas

FOTOGRAMAS
E naquele momento em que eu estava morrendo não passou um filme na minha cabeça. Nem um curta, nem um longa, nem uma série, ou musical, comédia, drama, aventura. Nem Fim foi escrito nos letreiros frente aos meus olhos. Nada vi. Simplesmente morri no filme tão lindo que nem existiu. Era um romance...

Tudo começou quando eu descia a Paracatu e você vinha com seu jeito desligado no sentido Jabaquara. E eu sempre distraído desta vez me atentei para o seu andar bailarino e sensual. Você foi se aproximando e eu tive certeza de que te conhecia, mas nunca houvera te visto. Até que passamos um pelo outro. Eu te admirei a beleza e fui completamente ignorado.

Quando você já estava a quatro passos além, estanquei os meus. Era estranho, mas eu sabia que tínhamos história. Não conseguia lembrar direito. Na minha cabeça éramos muito mais do que conhecidos. Tínhamos intimidade. Na realidade vivíamos aquela cumplicidade que só o tempo de convivência permite construir e solidificar na vida juntos.

Ao me despertar novamente você já se afastara quase meio quarteirão e eu ali estático, sem reação, desprovido de palavras ou idéias para que você me reconhecesse e percebesse o quanto éramos importantes um para o outro. A minha figura incomum e descabelada não poderia ser esquecida assim tão facilmente como se fora um transeunte qualquer, um mero indigente.

Você prosseguiu impávida, com passos impiedosos alcançando o próximo quarteirão enquanto eu, imóvel, me certifiquei que você era o amor da minha vida. Sim. A nossa paixão arrebatadora fora invejada e cantada pela cidade, versada em rimas ricas pelos poetas mais instigantes. Eu só não entendia o tamanho da sua frieza, como se nada houvera existido entre nós.

Os pensamentos embaralhados em minha mente, o coração despedaçado pelo desprezo que eu recebia após tantas juras de amor que devíamos ter feito um para o outro ao longo dos anos me transtornaram, mas nem assim consegui me mexer. E você já chegava à grande avenida, bem próxima da última esquina. Pensei em gritar o seu nome, mas eu não o sabia.

Antes que virasse a esquina eu tive esperança de que você parasse, me visse ali na calçada feito cão abandonado, olhasse nos meus olhos dando aquele sorriso que era exclusivo meu e flutuasse de braços abertos pra mim, momento em que soaria nas rádios uma sonata de Chopin emocionando o mundo, mas não. Você sumiu entre as pessoas que atravessavam a rua.

Aí o sangue subiu e me deu uma raiva! Quem era você pra me tratar daquele jeito? O que eu tinha feito para merecer aquilo? Havia me dedicado tanto, tínhamos sonhado um futuro tão bonito longe dessa loucura urbana que desvirtua os melhores sentimentos. E nossos filhos, nossa casa? O cérebro a mil, mas os meus pés se movimentaram em slow motion.

Quando cheguei esbaforido e cheio de ódio na Jabaquara você andava aceleradamente rumo ao metrô São Judas. Ah... mas eu te alcançaria. Você não fugiria assim impune e me considerando um lixo, a escória humana, um traste, um verme, um nada. Não sei como foi surgir uma peixeira em minha mão exatamente na hora em que comecei a correr desenfreadamente.

As pessoas me viram correndo de olhos esbugalhados com aquela faca na mão e assustadas gritaram pela polícia. Ninguém imaginava o quanto a gente tinha se amado, a intensidade da paixão que vivêramos. Não podiam entender que eu tinha plena razão pela minha revolta incontrolável. Eu não te conhecia, mas acreditava que tudo aquilo era a mais pura verdade.

Vendo-me ao lado, a expressão de pavor em seu rosto foi comovente. Que horror cinzento em seus olhos tão verdes. Tive a impressão que finalmente você me reconhecia e se arrependia tardiamente de me ter feito esse mal. O impressionante é que eu ainda não recordava de você. A faca já sentia o sabor do seu sangue quando seis balas de 38 estraçalharam o meu corpo.

E naquele momento em que eu estava morrendo não passou um filme na minha cabeça. Nem um curta, nem um longa, nem uma série, ou musical, comédia, drama, aventura. Nem Fim foi escrito nos letreiros frente aos meus olhos. Nada vi. Simplesmente morri no filme tão lindo que nem existiu. Era um romance...


Fábio Roberto

Inspirado em “Sui Generis” de Leandro Henrique                    

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

DEUSA

Ainda não sei o sabor
Do beijo que ontem sonhei
Passeando pela paisagem
De mãos dadas com uma deusa

Eu lembro que havia o canto
Da natureza espantada
Com a paixão que nascia
E o coração desejava

Os pés nem se cansavam
Amantes assim flutuam
Parecia tudo real
Os olhos clareando a noite

Não precisamos palavras
O sentimento entendeu-nos
Aquecendo em abraço tão forte
Que a vida se despertou

Movimentando a lua
Do céu para outro tempo
Nascendo um dourado dia
Feliz por abrir os olhos

E admirar o teu rosto
Sorrindo e era apenas sonho
Lugar onde eu te beijei
E onde eu sei o teu gosto


Fábio Roberto

09.08.17

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

EPITÁFIOS DE...


Dono de Celular da Oi: tchau!
Dono de Celular da Vivo: morto-vivo
Dono de Celular da Tim: aparelho fora da área de cobertura.
Curto e Grosso: off
Cervejeiro: daqui não há quem cevada.
Realista: a pós-vida está osso!
Desiludido: enterraram meus sonhos.
Viciado: do pó ao pó.
Convencido: meus pêsames para todos.
Português: terra à vista!
Rico: o futuro... adeus, pertences!
Sovina: Deus me pague!
Ateu: Há...Deus?
Pobre: lápide retirada por inadimplência.
Gay: já dei o que tinha que dar.
Devedor: devo não nego, vem aqui me cobrar.
Modelo: meu esqueleto veste um terno Giorgio Armani.
Fumante: estou na área reservada para fumantes!
Atleta: bati o meu recorde sem respirar!
Bombeiro: só restaram cinzas...
Pescador: tantas minhocas, mas cadê a vara?
Ansioso: já fui tarde.
Incrédulo: isto não está acontecendo.
Otimista: passei desta para melhor
Fábio Roberto

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O ANO NOVO

O Ano Novo resolveu não nascer. De soslaio perscrutou o ambiente e resolveu continuar no casulo. Não gostou de nada do que viu. Que adianta chegar e tudo ser igual ou pior? Para que novamente tantas falsas promessas ou esperanças que seriam frustradas? Que ficasse tudo como estava, o Ano Velho se perpetuando coberto de insensatez, injustiças e maldades. Quem sabe a realidade se tornando tão cruelmente perene, pudesse em algum momento a vida sorver com a língua suas lágrimas.

E assim, decidido e irredutível, o Ano Novo fechou os olhos e adormeceu na manhã do último dia do Ano Velho. Este, ancião em frangalhos e com a alma carcomida pela dor, desesperou-se e gritou implorando descanso aos céus. Os Senhores do Tempo, subitamente surpreendidos pela inusitada ação do Ano Novo, convocaram uma reunião com todos os Anos Antigos, que estavam muito mais antigos, pois desde que o mundo se tornara mundo um se somava ao outro sem recesso, portanto o ano I era o Pai de Todos. O Pai de Todos os anos falou aos Senhores do Tempo que aquilo era inadmissível, um absurdo, uma afronta. Como aquele rebento que nem saíra ainda das entranhas da mãe eternidade se rebelava contra a lógica da existência? Exigiu uma providência enérgica falando em nome de todos os Anos Antigos e principalmente pelo Ano Velho atual, que tremia em espasmos desesperados, numa espécie de Parkinson aflorado pelo medo. Mas o que os Senhores do Tempo poderiam fazer? Não havia como obrigar o Ano Novo acordar se ele não quisesse. A situação foi piorando e ficando catastrófica, pois no planeta os preparativos para as festas da virada do ano prosseguiam despreocupadamente, até que o Ano Velho avisou que exatamente à meia-noite também adormeceria para o horizonte.

E assim aconteceu. Sob os olhos estupefatos dos Senhores do Tempo e defronte aos boquiabertos Anos Antigos, o Ano Velho deitou-se em nuvens ao lado do Ano Novo, apagando-se rapidamente. Silenciosos e num sono profundo, ambos passaram a sonhar o mesmo sonho: um tempo que merecesse ter continuidade. Ninguém ainda percebeu que desde aquele dia o ano não muda, não vai pra frente nem retorna. E os dois ainda estão lá, sonhando. Quem sabe desta vez, quem sabe desta vez o Ano Novo acorde...


Fábio Roberto